existe uma sombra que me persegue


quando passo em frente ao espelho


costumo ver sua silhueta


só queria não desmoronar

feita de areia

naquele abismo de medo


a mente,

          o diabo no matagal


o grande bem e o grande mal

eram sempre apocalípticos


era na transversal que o homem se alimentava das coisas


o homem apocalíptico

que comia a terra

que se comia

na cadência de um relógio


e ela não sabia dizer

parecia

o tempo ia explodir



o que eu sei

é que eu quero ser como você

e quero que você seja como eu


todo o resto é loucura


Ela



- Instalação, José António Silva -




era o mesmo fausto que entregou à ordem

seus pulmões

brônquios

nariz

          para conhecer de perto as propriedades do ar



Se a vida é uma festa, digamos que eu promova a festa, organize a festa, passe mal durante a festa, a festa continue, e eu volte para limpar a sujeira no final da festa, todos os dias.


Sexta-feira e lutas cármicas. Uma lua dourada no céu do Rio de Janeiro. Em São Paulo, uma de prata. A desconcertante certeza das incertezas afins. Constante. A própria incerteza, e a do Universo. As mudanças no calendário  —  rasgar papéis. O bárbaro em comum. O amor como magia e fato. Que um dia desaparece. Dando lugar a uma espécie de nada oculto. Algo a ser descoberto. Que pode ser tudo se bem observado e muito próximo. O fechar de um ciclo e o início de outro, o de sempre. Não saber o que fazer, e por isso não fazer nada. Um passo no meio da rua reverberando milhões de tsunamis. A tsunami do homem. Derrame do amor todo dentro do cérebro. Iludindo sinapses. Tornando a perda de rumo uma significante de justificativas.

Torpes e vis são sempre os motivos do esquecimento.



o futuro era assim


Pretendia ficar apenas mais um minuto. De resto, os discos que não ouvira. Morangos na geladeira e respostas sem perguntas. Uma casa quieta e vazia. Como ardia o nada que esperava. E não sabia o que era. Como pesava. Saber o final de um livro.


intergentes falais

por códigos

análogos

       

semiólogos espiais

pela espinha e sob o dorso

do dragão

                    a curvatura de um código-fonte

                           subdesenvolvido para ser manipulado

                num grande laboratório de códigos-fonte

       

epistemólogos e matemáticos decifrais

se o movimento

qualquer movimento

é concebido a priori

       

e se for

                                               de fato parece ser

       

juristas compadecei

- Vós

                das inúmeras rédeas sem dono

                que constam nos autos

       

       

poetas

        afundais

porque já é ávida e movediça

a lavra da palavra

cuja grafia começou

ontem

       

       



Pior que Gregor Samsa, despertou uma manhã em sua cama, e sem lembrar-se de sonho algum, viu-se metamorfoseado num cubo. As pessoas passavam, e nem notavam. Podia se tratar de um dado desconhecido da noite passada, ocultado do tabuleiro. Vai saber. Ou, no máximo, um simples cubo, e só. Não importava. Era fato corriqueiro as pessoas passarem por cubos sem repararem neles.

Prestava atenção nisso só agora que podia ver através de cinco lados. O sexto, supunha, era a bunda. Mas se rolasse seu cúbico corpo sobre a cama, qualquer outro lado podia ser a bunda.

Interessante, se não fosse o caso de não poder se comunicar por lado algum. Espantado, se é que lhe cabia mais algum espanto, descobriu-se um cubo mudo.

Com o passar do tempo, o desespero era a geometria ser sagrada. Se ninguém notara um cubo, quem haveria de perceber o dodecaedro em que hoje cedo transformado, despertara?

E só acordara dodecaedro por não poder pedir socorro enquanto cubo. Sem contar que se as transmutações geométricas eram infinitas, o que parecia ser o caso, chegaria o dia em que acordaria esfera, círculo, e alguém poderia muito bem confundí-lo com um alvo.

Não queria nem pensar. Por precaução, nos próximos dias, toda vez que despertasse metamorfoseado num poliedro diferente, em constante progressão geométrica, procuraria, com mais olhos, pelo raio de uma seta.


não era o reino das palavras que mordiscava as entranhas

mas o do sussurro

arranhões

unhas penetrando a carne


posse

possessão

a intensidade de um escorpião encurralado


como desdizer

como desdizer a paixão


Arcana XXII


louca solta sem medida

cansada liberta cheia da vida

extrema estrela sob o meio dia

pinçada a sol na tardia noite

rastejando o pulso na encardida noite

no restante ontem

em salto secreto

a grandeza hoje

e todo o mistério mais que correr


Da insatisfação


Estudos científicos comprovam: 50% dos tomates queriam ter nascido caquis.


ela


estava nua, parada, quieta lá, nem um pio; podia morrer naquela posição fitando o nada, que ele não era pintor.



romper o silêncio da madrugada com um muxoxo sombrio
a rigidez dos músculos
ossos por baixo de tudo
luto
luto


eu faço poemas para esquecer



Starry Night Over The Hone - Van Gogh

O POUSO DA NAVE VANGOGHIANA

SOBRE AS ÁGUAS


VIDA E MORTE

ILUMINADAS A ESPÁTULAS


ausência


as palavras repousam

{ secretas }

os seus mistérios


ela


a escuto entre adivinhações alucinatórias

                                     dedico – `a – Xamãs cuidadores das horas

e dos desvios de rotas


                     pelo encanto que entoa

               a corpos-zumbis

        que passeiam a rodo                       

     pela anelacidade

                                        deflagro:

                           — ei la' saturnina!

o olho em sua testa



                      ungida
a celebro

por não existir forma de ignorá-la



fosse antes o turbilhão de um só

  a tomar a hora do sonho difuso

              a orientação do tumulto

        a ostentação de um indulto

mas não




por não encontrar desconhecimento

                               a consagro

                         como ser

                   inexato

          insensato

     obscuro


à roda precisa

em cima do muro


ei-la


a passar pela longa noite da alma

sob seus pés dançam      corpos e 

vontades


mas não os toca

não os toca



para sentir mais

e mais

a si



sua mão

                  que  sobre o caminho

                  entorna obediências

aquiesce



não há porvir para as Rosas


          não há porvir


photopoema - experiência

o poema abaixo foi inspirado nas imagens apresentadas de forma aleatória.


estático

como as pedras

e os livros nas estantes




atormentado

como uma mesa sem tampo

em preto e branco

contra a luz




sacado

de 38mm frente aos soldados do seu povo




o coração envolto em nuvens

desesperado




sobre os telhados

vertiginosos

olhos aguardam





o instante

de proceder a trama




recolher no grande cesto

as pétalas

do senhor


tempo não é dinheiro


tempo é qualidade

e qualidade é dinheiro


E disse o híbrido:

Imagem do blog da Lu Pennah, via o silêncio dos livros.




Vá! Condenada seja a ficar sobre os livros

sem no entanto folheá-los

escrevê-los


Eis o tempo eterno de uma fotografia

que pode ser queimada

esquecida

dada como inexistente se renomeada


Vá de si

que aguarda o postergável


Escolhe

    fundir à escuta o tempo do silêncio

          levantar hipótese de futuro movimento

               abandonar o quadro que sequer finge ver


O teatro da vida é sempre um ato a parte

um ponto de fuga

constelação de sinais


Vá de si

se há caminho


        Ou é a espera

        consumada

        no tanto que a consome?



entre prédios


meio-sol do meio-dia

nem um            vão

para a poesia


ela

pensava em ter muito cuidado com as palavras. para que não saíssem a esmo. nem permanecessem caladas por só existirem no medo. era necessário coragem e humildade para compreender.

pensava em não ferir as palavras. não lhes dar a ilusão de serem úteis ou belas. o sentido da palavra era sempre outro quando perdida de intenções.

e o eco as irritava.


Samsara

fugir da mulher adúltera.

a que se casa com todas as suas existências.


a mata não estava escura


a mata adensa o oculto

por trás de cada árvore
pode surgir o absoluto

um prédio por exemplo
e pela lucidez insana

um homem        um carro
mais veloz
que o espírito das seivas

pode surgir um algoz
algum rabisco de marcas
atroz

qualquer       qualquer
coisa farta

que não dobre à força
aquela imagem

o verde soprando para fora
daquela imensa floresta


egrégora do amor

uma garra na ponta do coração


Ela

                         no dia em que abandonou o corpo

                         e nem o mar lembrou

                         aos seus


era o esquecimento

despedindo

qualquer herança





- gravura de Albrecht Durer - via Claudio Daniel -



esponsais

nas escadas



diamante



impurezas em meio

às vestes sais



nem a santidade

em forma humana

delirante



nem a ralé com que

nos animais


ele,

numa demonstração de claro desarranjo, chegou à conclusão que queria ser todo aceito, mas não queria aceitar tudo. pensava que a dor era apenas prazer que o seu corpo desconhecia. que a música um dia falaria com as pessoas. que ele mesmo, a sentença da dualidade divina, nunca se esqueceria da possibilidade de a coragem ser comprovada apenas pela inverção de tudo o que era considerável. como um fechar de dois olhos. sem perder uma única consciência.

você em três atos. distantes.

quando arremeteu o livro. e contrariando a lógica, ele abriu-se ao meio.
e voou.

ao dizer adeus
sem prazer.

aí, sentado com as mãos sob o queixo pensando em quem sabe.

sobre confiança

chega um tempo em que a confiança não estabelece mais diálogo com o significado do termo. com o motivo dele existir. com o motivo da própria confiança existir.

afinal, não são apenas os tolos os que mais confiam.

motivos para isso nunca são precisos.

a questão da confiança é maior. pressupõe a justa verdade. e tudo a que a justiça se apega, como se sabe, não encontra a correspondência da medida no valor.

nós somos a justiça. somos nós que damos status de viabilidade á ela.

então, chega um tempo em que a confiança é como a justiça. só depende de quem confia e de quem é confiável.