feita de areia
naquele abismo de medo
a mente,
o diabo no matagal
o grande bem e o grande mal
eram sempre apocalípticos
era na transversal que o homem se alimentava das coisas
o homem apocalíptico
que comia a terra
que se comia
na cadência de um relógio
e ela não sabia dizer
parecia
o tempo ia explodir
Ela
era o mesmo fausto que entregou à ordem
seus pulmões
brônquios
nariz
para conhecer de perto as propriedades do ar
Torpes e vis são sempre os motivos do esquecimento.
intergentes falais
por códigos
análogos
semiólogos espiais
pela espinha e sob o dorso
do dragão
a curvatura de um código-fonte
subdesenvolvido para ser manipulado
num grande laboratório de códigos-fonte
epistemólogos e matemáticos decifrais
se o movimento
qualquer movimento
é concebido a priori
e se for
de fato parece ser
juristas compadecei
- Vós
das inúmeras rédeas sem dono
que constam nos autos
poetas
afundais
a lavra da palavra
cuja grafia começou
ontem
Pior que Gregor Samsa, despertou uma manhã em sua cama, e sem lembrar-se de sonho algum, viu-se metamorfoseado num cubo. As pessoas passavam, e nem notavam. Podia se tratar de um dado desconhecido da noite passada, ocultado do tabuleiro. Vai saber. Ou, no máximo, um simples cubo, e só. Não importava. Era fato corriqueiro as pessoas passarem por cubos sem repararem neles.
Prestava atenção nisso só agora que podia ver através de cinco lados. O sexto, supunha, era a bunda. Mas se rolasse seu cúbico corpo sobre a cama, qualquer outro lado podia ser a bunda.
Interessante, se não fosse o caso de não poder se comunicar por lado algum. Espantado, se é que lhe cabia mais algum espanto, descobriu-se um cubo mudo.
Com o passar do tempo, o desespero era a geometria ser sagrada. Se ninguém notara um cubo, quem haveria de perceber o dodecaedro em que hoje cedo transformado, despertara?
E só acordara dodecaedro por não poder pedir socorro enquanto cubo. Sem contar que se as transmutações geométricas eram infinitas, o que parecia ser o caso, chegaria o dia em que acordaria esfera, círculo, e alguém poderia muito bem confundí-lo com um alvo.
Não queria nem pensar. Por precaução, nos próximos dias, toda vez que despertasse metamorfoseado num poliedro diferente, em constante progressão geométrica, procuraria, com mais olhos, pelo raio de uma seta.
mas o do sussurro
arranhões
unhas penetrando a carne
posse
possessão
a intensidade de um escorpião encurralado
como desdizer
como desdizer a paixão
Arcana XXII
louca solta sem medida
cansada liberta cheia da vida
extrema estrela sob o meio dia
pinçada a sol na tardia noite
rastejando o pulso na encardida noite
no restante ontem
em salto secreto
a grandeza hoje
e todo o mistério mais que correr
ela
estava nua, parada, quieta lá, nem um pio; podia morrer naquela posição fitando o nada, que ele não era pintor.
romper o silêncio da madrugada com um muxoxo sombrio
a rigidez dos músculos
ossos por baixo de tudo
luto
luto
eu faço poemas para esquecer
ela
a escuto entre adivinhações alucinatórias
dedico – `a – Xamãs cuidadores das horas
e dos desvios de rotas
pelo encanto que entoa
a corpos-zumbis
que passeiam a rodo
pela anelacidade
deflagro:
o olho em sua testa
ungida
a celebro
por não existir forma de ignorá-la
fosse antes o turbilhão de um só
a tomar a hora do sonho difuso
a orientação do tumulto
a ostentação de um indulto
mas não
por não encontrar desconhecimento
a consagro
como ser
inexato
insensatoobscuro
à roda precisa
em cima do muro
ei-la
a passar pela longa noite da alma
sob seus pés dançam corpos e
vontades
mas não os toca
para sentir mais
e mais
a si
que sobre o caminho
entorna obediências
aquiesce
não há porvir para as Rosas
não há porvir
photopoema - experiência

estático
como as pedras
e os livros nas estantes
atormentado
como uma mesa sem tampo
em preto e branco
contra a luz
sacado
de 38mm frente aos soldados do seu povo
o coração envolto em nuvens
desesperado
sobre os telhados
vertiginosos
olhos aguardam
o instante
de proceder a trama
recolher no grande cesto
as pétalas
do senhor
E disse o híbrido:
Vá! Condenada seja a ficar sobre os livros
sem no entanto folheá-losescrevê-los
Eis o tempo eterno de uma fotografia
que pode ser queimada
esquecida
dada como inexistente se renomeada
Vá de si
que aguarda o postergável
Escolhe
fundir à escuta o tempo do silêncio
levantar hipótese de futuro movimento
abandonar o quadro que sequer finge ver
O teatro da vida é sempre um ato a parte
um ponto de fuga
constelação de sinais
Vá de si
se há caminho
Ou é a espera
consumada
no tanto que a consome?
ela
pensava em ter muito cuidado com as palavras. para que não saíssem a esmo. nem permanecessem caladas por só existirem no medo. era necessário coragem e humildade para compreender.
pensava em não ferir as palavras. não lhes dar a ilusão de serem úteis ou belas. o sentido da palavra era sempre outro quando perdida de intenções.
e o eco as irritava.
a mata não estava escura
a mata adensa o oculto
por trás de cada árvore
pode surgir o absoluto
um prédio por exemplo
e pela lucidez insana
um homem um carro
mais veloz
que o espírito das seivas
pode surgir um algoz
algum rabisco de marcas
atroz
qualquer qualquer
coisa farta
que não dobre à força
aquela imagem
o verde soprando para fora
daquela imensa floresta
Ela
no dia em que abandonou o corpo
e nem o mar lembrou
aos seus
era o esquecimento
despedindo
qualquer herança

- gravura de Albrecht Durer - via Claudio Daniel -
esponsais
nas escadas
diamante
impurezas em meio
às vestes sais
nem a santidade
em forma humana
delirante
nem a ralé com que
nos animais
ele,
você em três atos. distantes.
e voou.
ao dizer adeus
sem prazer.
aí, sentado com as mãos sob o queixo pensando em quem sabe.
sobre confiança
afinal, não são apenas os tolos os que mais confiam.
motivos para isso nunca são precisos.
a questão da confiança é maior. pressupõe a justa verdade. e tudo a que a justiça se apega, como se sabe, não encontra a correspondência da medida no valor.
nós somos a justiça. somos nós que damos status de viabilidade á ela.
então, chega um tempo em que a confiança é como a justiça. só depende de quem confia e de quem é confiável.






